Noite dessas não rezei.
Optei por desfolhar, num bem-me-quer ou mal-me-quer, uma margarida diante de Deus.
Ele não gostou do meu olhar de soslaio.
E eu, que gosto de me equilibrar no limiar do desconhecido, caminhei descalça no fio da lâmina e lhe perguntei: Por que não?
Ele não respondeu e aguardou.
Aquele silêncio onipotente me irritou, aquela condescendência aos que não sabem o que estão fazendo me irritou mais.
Sem pensar em consequências, desequilibrada aos seus olhos, me mantive na ponta da arma empunhada por ele, olhei bem nos seus olhos e bradei:
-Eu tinha apenas seis anos e você me pregou naquela foto de família, pelos ombros, com percevejos.
Seu silêncio ecoava sentencioso.
Bradei mais.
A cada tentativa de me livrar, sangrei.
Não foram poucas as vezes que me agitei, numa recusa tão descontrolada que, quanto mais recusava, mais sangrava.
Por vezes, sangrava tanto que desfalecia, como quem morre sem desejar ressurreição.
Passado algum tempo, recobrava a consciência e me entregava de novo à cura, mais por cansaço do que por resignação.
Chegava a dizer, num fio de voz:
-Livrai-nos dos nossos inimigos.
E aguardava por outro acumular e outro jorrar.
Foram várias as passagens.
Não marquei batentes das portas de casebres de primogênitos, escorri no porta-retrato.
El gallo giro
Há 6 anos
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