segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Noite de sábado

Noite longa, escura para retina.. clareio com lamparina.
Na sacada, metade do diâmetro da lua faz cascata na parede... despe as grades, espalhando suas roupas pelo chão.. até a comigo-ninguém-pode, rende-se nua.

Alguém dedilha o piano.. vem do alto.
Penso em notas despencando, claves de sol se lançando... e sinto solo.
Solo de piano,
Solo de guitarra,
Solo de descanso.. esperando seu arado.
Solo de solidão... não de solitária.


Solo de confusão, de quem não compreende ou não tem qualquer tesão....

Sou solo.. solo de minhas idéias, de minhas grandezas, fraquezas e estranhezas.
Sou solo de mim, menos de ti e meio-a-meio com aquele ali.
Bjo


quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Do amor e da amizade

Resvalo no vão entre a cama e criado. O incenso intensifica no ar a suspensão de mim. Sinto-me parada no ar.
Resgato-me do vão, busco tua mão, teu manto verde... sempre estás comigo.
Noite fria! Penso no que Pozzo postou. Algo entre a amizade ser face do amor. E em minha inflexão: Todo amor será face de uma amizade?!?
E sou toda sentimento.. de lembrança.



Parto da lembrança do pátio de colégio noturno, amigos, conhecidos e outros nem isso. Tempos de livros emprestados, violões tocados em plena segunda ou quarta-feira à noite; intervalos nos quais não cabiam tanto ser, ter, saber e mostrar interrompidos pelo sinal para voltar à sala; discussões políticas; distensões políticas; dissidências e todo um lutar pelos direitos que ainda nem sabíamos usar.
E entre tanto e tantos....estávamos nós.
Eu não tinha você.... eu amava você. Eu não pensava em moldar você; eu te absorvia, deixava-me transformar e trazia-me às próprias mãos p/ teu olhar. Você me compreendia. Eu sorria e devolvia. Eu te abraçava e você se entregava. Eu nem pensava e você também não, que era amor.. amor de amizade... amizade de amor... tudo junto, misturado, dosado, fragmentado e inteiro.. tudo ao mesmo tempo e num só momento. Aquele momento.

Hoje, não sei de você.
Não sei se era amizade de amor.. amor de amizade... saudade de não sei o quê... espelho do que eu não enxergava em mim e podia amar... se era teu espelho e deixaste cair e quebrar.... eu me despedi e você me deixou sair.

Adormeço no vão entre a cama e o coração.


Bjo

domingo, 27 de julho de 2008

Fragmento de Ensaio " Da Amizade" por Montaigne



Constato, mais uma vez, e não de forma menos sentida, que das incompreensões, advém a necessidade de conhecimento.
Recorrência à cerca do tema “Amizade” . Tenho nos últimos tempos, buscado entre meus “amigos” definições, que se transformam em enlaces... enlaces que encadeiam uma lógica e, quando estruturada, possibilita um acréscimo para a compreensão...
Busco me distanciar da incompreensão de que: sendo amizade, porque deixou de existir? Então o que é amizade, além de forma estreita e concepção mínima de que posso ter?
Cética de que é impossível encontrar resposta.... busco nos pensamentos “encadeados” minimizar a incompreensão.
Depois de Cícero, procuro Montaigne, mais uma vez, com minhas incompreensões. Ele, sempre, sempre está lá... com seu manto verde, detalhes dourados. (Encontrá-lo de forma recorrente, em minha cabeceira, é prova de amizade.... Mas, amizade de quem? Dele ou minha?)

Essa amizade...

Em seu ensaio “Da Amizade”, nos coloca sua contemplação do trabalho de um pintor que tinha em casa. Da vontade que sentiu de ver como o artista procedia. Observou que ele escolhera o melhor lugar no centro de cada parede para pintar um tema com toda a habilidade que possuía. Em volta, no vazio restante da parede, preencheu com arabescos, pinturas fantasistas que só agradam pela variedade e originalidade.
É assim que Montaigne me convida em alta madrugada, para “falar” sobre a Amizade.

Elucida que, tal qual o pintor, seus Ensaios livro também é composto de unicamente de assuntos estranhos, fora do que se vê comumente, formado de pedaços juntados sem caráter definido, sem ordem e que só se adaptam por acaso uns aos outros. (O exílio lhe permitiu exprimir suas “estranhezas”, como as define aqui).

Toma de empréstimo a Etienne de la Boétie, o ensaio que escrevera na adolescência a fim de exercitar em favor da liberdade e contra a tirania....(posso estar enganada, mas aqui, minha percepção é de que Montaigne começa sua “pintura central”... os arabescos virão.. ah! Sim.. eles virão!)...
Montaigne enaltece a faculdade de la Boétie de expressar coisas notáveis, bem próximas daquelas que se orgulharia a antiguidade.
Logo demonstra sua fidelidade e afetuosidade a alguém que ”ao render seu último suspiro”, lhe entregou sua biblioteca e seus papéis e encerra com “essa amizade que nos uniu e durou quanto Deus o permitiu, tão inteira e completa que por certo não se encontrará igual entre os homens de nosso tempo. Tantas circunstâncias se fazem necessárias para que esse sentimento se edifique, que já é muito vê-lo uma vez cada três séculos.”
Bjo

terça-feira, 6 de maio de 2008

E há sol...


... e com ele, calor!
Um calor que aquece, além da pele... que pode aquecer o frio na alma.
Mas, para isso, há que se ter "olhos diferentes"... olhos de quem deseja enxergar um pouco além.
E é justamente esse "pouco além" que pode fazer toda a diferença. Isso é discernimento.
E o que é sentimento?!?

Em minha mente há diversas "gavetas". Em noite recente, em meu pré-sono, me vi a remexer na gaveta emocional da saudade e, num instinto primário de defesa e sustentação, fechei tal gaveta. Algo tão rápido que me supreendi com minha capacidade cerebral.
No segundo seguinte a saudade era razão. E, sendo razão, não havia sentido em sentir emoção...
E sabendo disso, adormeci.
Bjo

domingo, 4 de maio de 2008

Há dias...

sinto uma saudade.... Uma saudade dilacerante...
Por essa saudade, um trecho do "Diálogo sobre a amizade" - por Cícero.



Capítulo VI

Definição e excelência da amizade


A amizade é uma suma harmonia nas coisas divinas e humanas, com benevolência e amor. Dons tão grandes, que não sei se os Deuses concederam (exceto a sabedoria), outro maior aos mortais. Preferem uns as riquezas, outros a boa saúde, outros o poder, outros as honras, e, muitos, os prazeres. Estes últimos são só muito próprios das bestas, e o outro caduco e perecível, dependente não do nosso arbítrio, mas da inconstante fortuna. E assim discorrem nobremente os que constituem o sumo bem na virtude e esta mesma é a que engendra e mantém as amizades, de modo que, sem ela, não pode existir amizade de modo nenhum. Interpretemos, pois, a virtude, como costumamos entendê-la, pelo uso comum da vida e não ameacemos como alguns doutos por certa magnificência de palavras. Contemos por bons aos que por tais são tidos, tais como os Paulos, os Catões, os Galos, os Cipiões, com os quais se contenta o comum da vida, e deixemos aqueles dos quais nos é impossível falar. Entre tais sujeitos, tem a amizade tantas conveniências quantas não saberei eu dizer.


Porque em primeiro lugar, como pode ser suportável (como diz Ênio) a vida que não repousa na mútua benevolência de um amigo? Que coisa tão doce como ter um com quem falar de todo tão livremente como consigo mesmo? Seria porventura tão grande o fruto das prosperidades, se não tivéssemos quem delas se alegrasse tanto quanto nós mesmos? E se poderiam sofrer as adversidades sem alguém que as sentisse ainda mais que aqueles mesmos que as experimentam? Finalmente tantas quantas coisas se apetecem, cada uma tem o seu uso particular: a riqueza, para o uso; o poder, para a veneração; as honras, para o aplauso; os prazeres, para o gozo; a saúde, para não sentir dores e ser expedito nos exercícios corporais; a amizade, abarca muitas coisas; para qualquer parte que nos volvamos a encontramos solícita, em todos tem lugar, nunca é impertinente, jamais molesta. De modo que não usamos mais da água e do fogo, como dizem, que da amizade. E não falo agora de uma amizade vulgar ou mediana (embora também esta deleite e aproveite), mas da verdadeira e perfeita, como foi a daqueles poucos que são tão afamados. Esta faz mais abundantes as prosperidades e as adversidades, rompendo-as e unindo-as, tornando-as mais suportáveis.

Bjo

quinta-feira, 17 de abril de 2008

UM LINK "QUASE" INEVITÁVEL....

Quando terminei a edição do post anterior, não deu outra: linkei a classificação dos Desejos por Epicuro e a Pirâmide de Maslow, na qual tem-se estabelecida a hierarquia das necessidades humanas.


Minha percepção é de que Maslow, no âmbito da Teoria do Comportamento Motivacional, "bebeu" na fonte de Epicuro, mesmo que sutilmente.
Vale checar.

Bjo.

domingo, 6 de abril de 2008

"PALAVRAS AO VENTO"

"Ando por ai querendo te encontrar, em cada esquina..."

E martela.. martela na mente...
E se for.. Andar por aí e, mesmo sabendo não encontrar, ainda assim, desejar..
Que tênue fio é este entre o saber e desejar?!?
Tem-se por definição que:

Em filosofia, o desejo é uma tensão em direção a um fim considerado pela pessoa que deseja como uma fonte de satisfação. (Isso, a mim, transmite a idéia de algo “bom”). Que por vezes é uma tendência consciente, outras vezes inconsciente ou reprimida.


Das possibilidades de “ser” do desejo

Quando consciente, o desejo é uma atitude mental (isso é biológico/químico?!?) que acompanha a representação (aqui já é algo “construído” a partir do conhecimento de “algo/alguém”?!?!?) do fim esperado, o qual é o conteúdo mental relativo à mesma (o fim esperado seria a constatação da “necessidade” de algo conhecido?!?).
Enquanto elemento
apetitivo, o desejo se distingue da necessidade fisiológica ou psicológica que o acompanha por ser o elemento afetivo
do respectivo estado fisiológico ou psicológico.
Tradicionalmente, o desejo pressupõe
carência, indigência. Um ser que não caressesse de nada não desejaria nada, seria um ser perfeito, um deus. Por isso Platão e os filósofos cristãos tomam o desejo como uma característica de seres finitos e imperfeitos.

Da Metafísica do Desejo

"Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar"


O desejo é um tipo de sentimento. Isso significa que ele faz parte do sujeito, agente ou pessoa, sem fazer parte do mundo, a não ser na medida em que a pessoa faz parte do mundo. O desejo é uma atitude mental do sujeito em relação ao mundo. É subjetivo, não objetivo.
Da Epistemologia

O desejo é um tipo de sentimento. Isso significa que temos acesso imediato e não-inferencial ao mesmo. Ainda assim, estamos sujeitos ao auto-engano e outras falhas relacionadas ao autoconhecimento na exteriorização dos nossos desejos. Podem ser atitudes mentais proposicionais ou acusativas. Quando se apresenta como atitude proposicional, trata-se de um desejo que certo estado de coisas se dê no mundo. Quando se trata de uma atitude acusativa, trata-se do desejo de certa coisa ou objeto.


Da construção da Ética quanto ao “Desejo”


"...minha dádiva"


O desejo foi tema importante das configurações da ética como morais metafísicas, tais como as que encontramos no estoicismo e no epicurismo.
Para os estóicos, a felicidade está não em desejar que ocorra o que queremos, mas, ao contrário, em desejar o acontecimento
. Sêneca pregava o estoicismo antes de 50 d.C.
Para os epicuristas, a felicidade e mesmo a riqueza
está em desejar ou querer apenas aquilo que já se tem.

Classificação dos desejos segundo
Epicuro

Desejos naturais
Necessários: Para a felicidade; Para a tranqüilidade do corpo (proteção); Para a vida (nutrição, sono)
Simplesmente naturais: Variações de prazeres, busca do agradável
Desejos frívolos
Artificiais: riqueza, glória
Irrealizáveis: desejo de imortalidade

Na música de Cássia tudo é tão simples... Tudo é tão calmo (consciência/conhecimento) e urgente (estoicismo pleno) ao mesmo tempo.

Bjo