quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Aleatória

Valha-me Deus
Das contas do terço
De negro cristal
Arramadas com sisal.

Meus pés
Dorso alado de teu chão
Cravejado de pedras
Despedidos da procissão.

Nas mãos anéis de prata
Ouro, cobre e latão
Aceno por sua retina
Desmancho em salinas

E o sonho de ti
é Morfeu a dedilhar
o móbile de memória
ao embalar-me a trajetória.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

BdE hoje

Mesa de bar.
Escritores.
Seus guardanapos de papel
cobrem letárgicos pierrots, clows e colombinas.
Findo onírico carnaval
Despertam mortais em dia de cinzas.

(Baseado na passagem pela comunidade "Bar do Escritor", nesta quarta-feira de cinzas)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O pão nosso de cada dia.

Uma das coisas que mais gostava na infância era buscar pão na padaria. Naquele tempo pão quentinho só de manhã ou no final da tarde. Nem se lia nos saquinhos de papel ”pão quente a toda hora”. E eu comprava o pão no final da tarde. Quando entrava na padaria, por volta das cinco da tarde, era como se aquele cheiro de pão assando, fosse o céu de poente entrando deitado pelo meu nariz, para dormir dentro da minha cabeça.
Nem lembro se comia o pão.


Lembro, de algumas vezes, minha mãe preparar um lanche quentinho e eu levar para meu irmão na escola, que saia para o intervalo lá pelas cinco e meia da tarde. Ele vinha me encontrar na grade de aramado que cercava a escola e pegava sua gostosura. Ele nem dizia obrigado. Meninos têm dessas coisas, acham que irmã mais nova é obrigada a fazer tudo para eles que até esquecem de sentir gratidão.

De manhã quem comprava o pão era meu pai.
Sei que acordava muito cedo, pois quando eu levantava às seis e quinze, para ir à escola, o pão já estava na mesa. Meu pai nunca comia o pão. Meu pai era um homem apressado.
Jardineiro, achava que ele tinha que chegar cedo, pois dizia que as plantas devem ser cuidadas antes do sol forte.

Todo mês de agosto ele podava as roseiras de casa. Lá pelo final de Julho ele já avisava minha mãe: -Mês que vem vou podar as roseiras. Eu não gostava disso, pois as três grandes roseiras do pequeno jardim, nessa época estavam grandes e lindas, com a poda elas ficavam pequenas, pareciam gravetos espinhudos e sem graça. E em todas as podas eu ficava do seu lado, para ir me acostumando com as novas roseiras.
Só quando adulta soube que meu pai não comia pão antes de sair para o trabalho, para deixar para nós, as crianças. O dinheiro era tão justo, ou injusto, que ele só comprava o necessário. Meu pai é um homem bom.

Já vai para cinco anos que um segundo AVC acometeu meu pai. Mais forte, esse segundo acidente comprometeu, definitivamente, sua deglutição. Receber alimentação por sonda, fez com que sentisse muito não poder mais dar-se ao único grande luxo que anos de trabalho lhe trouxera: comer bem. Para nosso desalento, a única coisa que meu pai pedia, durante os três primeiros anos com a sonda era: -Pão! Numa expressão arrastada e chorosa.

Meu pai me ensinou a ser honesta e responsável e isso ele não aprendeu na escola, pois nem pode freqüentar uma na infância. Meu pai é um grande homem.
Meu pai me ensinou, também, que o pão nosso de cada dia tem que ser conquistado a cada novo dia; e que o pão que o diabo amassou deve ser mastigado, com dignidade, mesmo quando não pode ser engolido.



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Certeza

Toda manhã a repetição. Um despertar buzzeado, musicado e um tatear bêbado. Uma alegria sonora disfarçada, para lhe fazer acordar e, só assim, respirar fundo.
Mais um dia, outro dia, e todos quase tão iguais, não fosse pelo aumento do desgosto de viver em uma cidade tão grande, em um apartamento tão pequeno e com uma alma que precisa esvaziar quase que diariamente.
Passa o café. Prepara algo para comer, sabe que aquilo tem sabor, mas nem assim desce deslizando pela garganta. Sente que bate no estômago, sacia a fome antes de senti-la e, pronto, um problema adiado por horas.
Entre o primeiro cigarro e o banho, escolhe a roupa, o sapato, a bolsa e o que mais for necessário aos olhos do mundo. Maquiagem não resolve, pois a janela da alma vive escancarada. Não há rímel que dê penumbra e sossego.
Apaga o cigarro. Despe o pijama, as meias, a calcinha e o sutiã. Liga o chuveiro. Não sabe se lava ou prende os cabelos. Em segundos, cabeça molhada e dorso aquecido. Tudo na mesma ordem, sempre. Junta tudo e soca no cesto de roupas que, por vezes, lhe parece um monstro de boca aberta, não para engolir, mas prestes a regurgitar toda sua roupa suja do mundo dos sonhos.
Outro café, para a certeza de que está mesmo acordada. Veste-se. Pendura em si o resto que o mundo precisa enxergar e abre a porta.
Fecha a porta e sente que tudo aquilo que fez até aquele instante são as únicas certezas de conquista que possui: um apartamento pequeno, em uma cidade imensa e uma alma que se enche e esvazia diariamente.