Não passava das dez, quando ouvimos o barulhinho pela janela imensa que fica atrás de mim e dá para a movimentada rua.
Plac! Tatac!.. Plac! Tatac!.... Silêncio.
A colega ao lado e eu nos olhamos, ansiosas, esperando pela repetição.
De novo, Plac! Tatac!...Plac! Tatac!
Rindo, falamos ao mesmo tempo: - É o homem do beijú!
E, de repente, percebi duas meninas com a mesma vontade de sair correndo, gritando prá todo mundo saber que o homem do doce estava passando. E depois correr mais, para tentar conseguir dinheiro com a mãe.
E quanto mais corria mais aumentava o medo de não conseguir uma moeda ou demorar tanto para consegui-la, que o pior poderia acontecer: ou o homem ter ido embora ou saber que o que era doce se acabou. Quando finalmente a mãe entregava a moeda, outra correria até alcançar o portão e ter alguma certeza que acalmasse a vontade.
E foi aí que senti o vácuo pelo desaparecimento de minha capacidade lógica e racional.
Não. Elas não desapareceram.
Foi uma lembrança de infância que acordou e tomou minha cabeça. As outras, a lógica e racionalidade, ficaram ali no canto, encolhidas, esperando o que aquela pequena e franzina criatura iria aprontar dentro da sala de estar da minha consciência.
Ela surgiu das profundezas, dos recônditos mais esquecidos dentro de mim e, indubitavelmente, por mim mesma.
Fazendo de minha consciência rasa um lago, emergiu espargindo, e não era água benta, sensações da menina magrela que vivia naquele bairro distante e poeirento.
Um bairro que ao meio dia era coberto por um silêncio tão grande ao sol a pino, que nem cães, gatos, nem mesmo moscas lhe pareciam vivos, enquanto observava todo aquele nada esturricado. Um nada preso na ponta da bota do Judas e à mercê de sua vontade. E o Judas era sacana e impiedoso. Havia dias em que sacudia a bota e tudo ficava bagunçado por aquelas bandas. Em outros, deixava a bota parada só prá ver o que fariam aqueles que carregara pros confins do mundo.
Uns confins tão sem nada, que o silêncio e o sol forte pareciam colocar todos aqueles habitantes em um estado profundo de sono, menos ela a menina magrela. E parecia que toda a natureza, numa sabedoria não conspiratória, mas conivente com o traidor, ficava quieta, à espreita de quem seria o primeiro a chacoalhar alguma coisa e quebrar aquele silêncio preso nas paredes das casas, nos portões, nos paralelepípedos, nas sarjetas e nos telhados.
O vento não soprava, pedras não rolavam, pássaros não cantavam e as nuvens nem passavam por aquela ponta de bota.
E dá-lhe desencanto, dá-lhe silêncio, dá-lhe sol forte na moleira, dá-lhe desolação e dá-lhe uma vontade de sair correndo.
Vontade de roubar as botas do maldito Judas e nunca mais voltar.
O homem do beijú seguiu e eu, depois de poucos segundos, calcei de novo as botas roubadas e voltei ao trabalho.