Era o tipo de homem que poucas coisas podiam surpreender. Tinha chegado lá, no topo. Jovem, uma carreira bem sucedida, mulheres em sua maioria lindas, mas, nem por isso, interessantes. Muitas coisas eram tidas com uma certeza tão irrefutável que nada parecia seguir fora de um curso quase sempre previsível e, por vezes, tedioso. Havia tal tranquilidade, que nem se lembrava mais do último frio na barriga.
Até aquela manhã.
A porta se abriu, ela entrou, apertou o “T” e ficou de costas à frente dele.
A proximidade de seu corpo com o dela era grande, mas percebendo que não havia necessidade de afastar-se ficou imóvel.
A manhã estava quente e, ao fechar a porta do elevador, todos sentiram falta do leve circular de ar.
Uns se abanavam, outros olhavam ansiosos para o painel, no alto, indicando o passar dos andares.
Em um movimento rápido, com uma das mãos ela enrolou os longos cabelos e os prendeu no alto da cabeça, em um coque tão displicente que algumas mechas caíram soltas pela nuca.
Ele observou o brilho dos cabelos e, ao baixar o olhar, pode divisar onde terminavam as raízes e começava a desenhar-se os contornos do pescoço. Seus olhos foram inundados de uma visão surpreendentemente branca. Tentando conter a inundação, cerrou levemente os olhos. A defesa do olhar foi anulada pelo enxergar dos pequenos pelos que, de tão claros, eram quase imperceptíveis. Eles, aqueles pequenos e delicados pelos protegiam a pele daquela mulher.
Pele, cabelo, pelo e contorno, despertaram nele a ideia de tocar aquela visão com a ponta dos dedos, de forma tão delicada que ela não sentisse, para que somente ele e seus sentidos fossem cúmplices. Uma cumplicidade suficiente para que ele pudesse entender o que sentia, sem ter que levá-la junto na viagem que faria em busca da compreensão perdida. Compreender-se sem depender das reações do corpo daquela mulher. Para depois repousar da busca ao certificar-se que era uma mulher maravilhosa que, sem uma única palavra, apenas com um gesto, lhe devolvera o desejo de experimentar a transgressão do desejo mínimo para uma verdadeira explosão, incontrolável e devastadora, de sentimentos. Ele estava disposto a ir até o fim.
Sentimentos tão simples e tão completos lhe devolviam a sensação de um ser complicado e incompleto.
Na impossibilidade do toque, sua visão deslizou e fez alpinismo naquele dorso.
Pode sentir o leve perfume de lima e verbena que ela usava. Queria sentir mais. Esperou e nada. E por não senti-lo viu a suavidade do aroma rir-se de sua espera. Sentiu envolver-lhe a cabeça num torpor de expectativa e frustração que só se compreendia entre uma respiração e outra. E a suavidade se divertia na gangorra de seu inspirar e expirar. E quanto mais respirava, mais ela ria. Para estancar a diversão engoliu a saliva que se acumulara, fechou os olhos e buscou a razão.
E pareceu-lhe que a razão voltou-se contra ele. Pois, o leve escorregar dos livros carregados junto ao peito por aquela mulher precisou ser freado e deu à suavidade a força que precisava. Todo aroma quente guardado dentro daquela roupa entrou em erupção pelo vão entre a gola e o pescoço. Maior torpor, outra gangorra e menos saliva. Não fosse o tranco sentido nas pernas, poderia jurar ter visto a suavidade sentada de pernas cruzadas sobre o ombro feminino a observá-lo, como quem detém o poder de subjugar o mais forte dos homens.
A porta se abriu, todos se foram e durante muito tempo procurou reviver, em vão, a possibilidade do idílico, aspirando frascos de perfumes em lojas da cidade.
El gallo giro
Há 6 anos
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