quinta-feira, 23 de abril de 2009

Dos males do mundo

Dirigiu-se para o quarto.
Antes de se deitar, parou diante do espelho salpicado de manchas pelo tempo.
Um segundo foi o suficiente para decidir a busca pela verdade definitiva.

Iria se escalpelar.

Um golpe certeiro e estava diante de algo nunca antes refletido no espelho.
Percebera algo viscoso e esverdeado escorrendo pelas bordas do que parecia um vulcão. O sangue estancara com o elemento que, não se lembrava de onde, sentia conhecer.
Ferir-se não era nada, diante do que buscava.
Com a ponta dos dedos retirou a velhice que precisava de cuidados.
Em seguida, pinçou a doença que em uma das mãos segurava o tarja preta e na outra uma garrafa de conhaque.
Depois a loucura que trazia a mentira em uma camisa de força.
Por fim, resgatou a paixão que, infelizmente, estava morta.
Tateou, tateou, constatando que não existia mais nada naquele oco do mundo.

Fechou-se.

Vagou pela casa. Na penumbra observou, pela janela, a cidade e suas luzes.
Não vislumbrando outra possibilidade, deixou-se crer que a esperança é verde. Que ela, no fundo no fundo, não está debaixo dos males do mundo. Ela os envolve e, assim, amortece as dores de cabeça encaixotadas por Pandora.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Cinco minutos

Ela voltou e estava alterada. Muito alterada.
-Você ainda não começou?
-Calma! Eu vou começar, mas preciso de tempo.
-Tempo? Como assim, tempo? Você já tem tudo. Está fácil.
-Isso é o que você pensa.
-Não se trata do que penso. Trata-se do que preciso.
-Quanta impaciência. Sossegue!
-Não posso sossegar. Você tem que começar. E rápido, pois preciso sair.
-Você não está boa para sair.
-Claro que estou. Vamos. Não posso mais ficar presa aqui.
-Pois arrisco dizer que quando terminar voce estará mais presa que nunca.

A pressa deu lugar à irritação.

-Você não entende. Eu fiquei esperando esses dias todos e você nem sequer começou.
-Acalme-se! Não aguento mais você andando de um lado para o outro. Me deixa tonta e angustiada.
-Faça que vou embora. Resolvemos o seu problema e o meu.
-Teimosa. Isso não vai te libertar.
-Bah! Chega de enrolação. Escreva!
Ela sentou e, em cinco minutos, cravou o texto.

Passado o torpor, releu e concluiu: Algumas ideias são tão malucas que enxergam liberdade nas grades da pauta.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Pessach

Noite dessas não rezei.
Optei por desfolhar, num bem-me-quer ou mal-me-quer, uma margarida diante de Deus.
Ele não gostou do meu olhar de soslaio.
E eu, que gosto de me equilibrar no limiar do desconhecido, caminhei descalça no fio da lâmina e lhe perguntei: Por que não?
Ele não respondeu e aguardou.
Aquele silêncio onipotente me irritou, aquela condescendência aos que não sabem o que estão fazendo me irritou mais.
Sem pensar em consequências, desequilibrada aos seus olhos, me mantive na ponta da arma empunhada por ele, olhei bem nos seus olhos e bradei:
-Eu tinha apenas seis anos e você me pregou naquela foto de família, pelos ombros, com percevejos.
Seu silêncio ecoava sentencioso.

Bradei mais.
A cada tentativa de me livrar, sangrei.
Não foram poucas as vezes que me agitei, numa recusa tão descontrolada que, quanto mais recusava, mais sangrava.
Por vezes, sangrava tanto que desfalecia, como quem morre sem desejar ressurreição.
Passado algum tempo, recobrava a consciência e me entregava de novo à cura, mais por cansaço do que por resignação.
Chegava a dizer, num fio de voz:
-Livrai-nos dos nossos inimigos.
E aguardava por outro acumular e outro jorrar.

Foram várias as passagens.
Não marquei batentes das portas de casebres de primogênitos, escorri no porta-retrato.