sexta-feira, 20 de março de 2009

Lima e verbena

Era o tipo de homem que poucas coisas podiam surpreender. Tinha chegado lá, no topo. Jovem, uma carreira bem sucedida, mulheres em sua maioria lindas, mas, nem por isso, interessantes. Muitas coisas eram tidas com uma certeza tão irrefutável que nada parecia seguir fora de um curso quase sempre previsível e, por vezes, tedioso. Havia tal tranquilidade, que nem se lembrava mais do último frio na barriga.
Até aquela manhã.
A porta se abriu, ela entrou, apertou o “T” e ficou de costas à frente dele.
A proximidade de seu corpo com o dela era grande, mas percebendo que não havia necessidade de afastar-se ficou imóvel.
A manhã estava quente e, ao fechar a porta do elevador, todos sentiram falta do leve circular de ar.
Uns se abanavam, outros olhavam ansiosos para o painel, no alto, indicando o passar dos andares.

Em um movimento rápido, com uma das mãos ela enrolou os longos cabelos e os prendeu no alto da cabeça, em um coque tão displicente que algumas mechas caíram soltas pela nuca.
Ele observou o brilho dos cabelos e, ao baixar o olhar, pode divisar onde terminavam as raízes e começava a desenhar-se os contornos do pescoço. Seus olhos foram inundados de uma visão surpreendentemente branca. Tentando conter a inundação, cerrou levemente os olhos. A defesa do olhar foi anulada pelo enxergar dos pequenos pelos que, de tão claros, eram quase imperceptíveis. Eles, aqueles pequenos e delicados pelos protegiam a pele daquela mulher.

Pele, cabelo, pelo e contorno, despertaram nele a ideia de tocar aquela visão com a ponta dos dedos, de forma tão delicada que ela não sentisse, para que somente ele e seus sentidos fossem cúmplices. Uma cumplicidade suficiente para que ele pudesse entender o que sentia, sem ter que levá-la junto na viagem que faria em busca da compreensão perdida. Compreender-se sem depender das reações do corpo daquela mulher. Para depois repousar da busca ao certificar-se que era uma mulher maravilhosa que, sem uma única palavra, apenas com um gesto, lhe devolvera o desejo de experimentar a transgressão do desejo mínimo para uma verdadeira explosão, incontrolável e devastadora, de sentimentos. Ele estava disposto a ir até o fim.

Sentimentos tão simples e tão completos lhe devolviam a sensação de um ser complicado e incompleto.

Na impossibilidade do toque, sua visão deslizou e fez alpinismo naquele dorso.
Pode sentir o leve perfume de lima e verbena que ela usava. Queria sentir mais. Esperou e nada. E por não senti-lo viu a suavidade do aroma rir-se de sua espera. Sentiu envolver-lhe a cabeça num torpor de expectativa e frustração que só se compreendia entre uma respiração e outra. E a suavidade se divertia na gangorra de seu inspirar e expirar. E quanto mais respirava, mais ela ria. Para estancar a diversão engoliu a saliva que se acumulara, fechou os olhos e buscou a razão.

E pareceu-lhe que a razão voltou-se contra ele. Pois, o leve escorregar dos livros carregados junto ao peito por aquela mulher precisou ser freado e deu à suavidade a força que precisava. Todo aroma quente guardado dentro daquela roupa entrou em erupção pelo vão entre a gola e o pescoço. Maior torpor, outra gangorra e menos saliva. Não fosse o tranco sentido nas pernas, poderia jurar ter visto a suavidade sentada de pernas cruzadas sobre o ombro feminino a observá-lo, como quem detém o poder de subjugar o mais forte dos homens.
A porta se abriu, todos se foram e durante muito tempo procurou reviver, em vão, a possibilidade do idílico, aspirando frascos de perfumes em lojas da cidade.

terça-feira, 10 de março de 2009

De beijú e botas

Não passava das dez, quando ouvimos o barulhinho pela janela imensa que fica atrás de mim e dá para a movimentada rua.
Plac! Tatac!.. Plac! Tatac!.... Silêncio.
A colega ao lado e eu nos olhamos, ansiosas, esperando pela repetição.
De novo, Plac! Tatac!...Plac! Tatac!
Rindo, falamos ao mesmo tempo: - É o homem do beijú!
E, de repente, percebi duas meninas com a mesma vontade de sair correndo, gritando prá todo mundo saber que o homem do doce estava passando. E depois correr mais, para tentar conseguir dinheiro com a mãe.
E quanto mais corria mais aumentava o medo de não conseguir uma moeda ou demorar tanto para consegui-la, que o pior poderia acontecer: ou o homem ter ido embora ou saber que o que era doce se acabou. Quando finalmente a mãe entregava a moeda, outra correria até alcançar o portão e ter alguma certeza que acalmasse a vontade.
E foi aí que senti o vácuo pelo desaparecimento de minha capacidade lógica e racional.
Não. Elas não desapareceram.
Foi uma lembrança de infância que acordou e tomou minha cabeça. As outras, a lógica e racionalidade, ficaram ali no canto, encolhidas, esperando o que aquela pequena e franzina criatura iria aprontar dentro da sala de estar da minha consciência.
Ela surgiu das profundezas, dos recônditos mais esquecidos dentro de mim e, indubitavelmente, por mim mesma.
Fazendo de minha consciência rasa um lago, emergiu espargindo, e não era água benta, sensações da menina magrela que vivia naquele bairro distante e poeirento.
Um bairro que ao meio dia era coberto por um silêncio tão grande ao sol a pino, que nem cães, gatos, nem mesmo moscas lhe pareciam vivos, enquanto observava todo aquele nada esturricado. Um nada preso na ponta da bota do Judas e à mercê de sua vontade. E o Judas era sacana e impiedoso. Havia dias em que sacudia a bota e tudo ficava bagunçado por aquelas bandas. Em outros, deixava a bota parada só prá ver o que fariam aqueles que carregara pros confins do mundo.
Uns confins tão sem nada, que o silêncio e o sol forte pareciam colocar todos aqueles habitantes em um estado profundo de sono, menos ela a menina magrela. E parecia que toda a natureza, numa sabedoria não conspiratória, mas conivente com o traidor, ficava quieta, à espreita de quem seria o primeiro a chacoalhar alguma coisa e quebrar aquele silêncio preso nas paredes das casas, nos portões, nos paralelepípedos, nas sarjetas e nos telhados.
O vento não soprava, pedras não rolavam, pássaros não cantavam e as nuvens nem passavam por aquela ponta de bota.
E dá-lhe desencanto, dá-lhe silêncio, dá-lhe sol forte na moleira, dá-lhe desolação e dá-lhe uma vontade de sair correndo.
Vontade de roubar as botas do maldito Judas e nunca mais voltar.
O homem do beijú seguiu e eu, depois de poucos segundos, calcei de novo as botas roubadas e voltei ao trabalho.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Todo dia da mulher (Pelo 8 de Março/2009)

Casa caiada
Chão batido
Telhado de sapê
Castelo corrompido

Xícaras não dançam
Bule e pires sobre a pia
Talheres sem fome
Nenhuma magia

Vestido surrado
Sapato trincado
Cabelo emaranhado

Pode ser mulher
Pode ser oleira
Pode ser gata
Uma gata de borrada olheira

quinta-feira, 5 de março de 2009

Saber inVertendo.

Étimo da escrita que desenho lasciva,
Jogralesa a cântaros sobre tuas têmporas.
Resedal tingindo a íris do pintor,
Meu papel de seda, meu cetim.

Pêndulo da incerteza do querer
Istmo de melancolia dos menestréis
Porta-joia de madrepérola
Píndaro de minhas odes não triunfais

Eutanásia de minha paz
Pirueta de minha alegria
Peripécia de meus sentidos
Eufemismo de minha desolação

Eu nem sei se te amo tanto!

quarta-feira, 4 de março de 2009

Estrela cadente (Por Lulin)

Desgovernada.
Risca a noite.
Curva fechada para o chão.
Mergulha no lago,
Espelho da lua e estrelas.
Agora é estrela do mar.

terça-feira, 3 de março de 2009

Realidade desvirtuada

Eu nem te conheço bem. Na verdade, nem lhe conheço. Apenas sei de você.
Um saber fatiado. Aos pedaços. Que mesmo que junte e costure, não será você. Será um retalho de você.
Mas não poderia ser diferente. Nunca te vi. Como também, nunca te amei. Também não amaria os e aos pedaços. Gosto de amar inteiro, poder virar do avesso, desvirar, tocar, amassar, alisar e descansar junto quando cansar.
Talvez a gente nem se encontre. Talvez a gente se esqueça por não ter colado na lembrança. Talvez tudo isso seja real. Talvez, só um corredor do lado de fora da realidade.
De vez em quando a gente desaparece. De vez em quando, um entra pela caixa do correio que não fica na porta da casa do outro.
Talvez você nem ache nada.
Talvez, daquela vez, nem era para ser outra vez. Mas continuamos, a entrar e sair da caixa do correio.