Toda manhã a repetição. Um despertar buzzeado, musicado e um tatear bêbado. Uma alegria sonora disfarçada, para lhe fazer acordar e, só assim, respirar fundo.
Mais um dia, outro dia, e todos quase tão iguais, não fosse pelo aumento do desgosto de viver em uma cidade tão grande, em um apartamento tão pequeno e com uma alma que precisa esvaziar quase que diariamente.
Passa o café. Prepara algo para comer, sabe que aquilo tem sabor, mas nem assim desce deslizando pela garganta. Sente que bate no estômago, sacia a fome antes de senti-la e, pronto, um problema adiado por horas.
Entre o primeiro cigarro e o banho, escolhe a roupa, o sapato, a bolsa e o que mais for necessário aos olhos do mundo. Maquiagem não resolve, pois a janela da alma vive escancarada. Não há rímel que dê penumbra e sossego.
Entre o primeiro cigarro e o banho, escolhe a roupa, o sapato, a bolsa e o que mais for necessário aos olhos do mundo. Maquiagem não resolve, pois a janela da alma vive escancarada. Não há rímel que dê penumbra e sossego.
Apaga o cigarro. Despe o pijama, as meias, a calcinha e o sutiã. Liga o chuveiro. Não sabe se lava ou prende os cabelos. Em segundos, cabeça molhada e dorso aquecido. Tudo na mesma ordem, sempre. Junta tudo e soca no cesto de roupas que, por vezes, lhe parece um monstro de boca aberta, não para engolir, mas prestes a regurgitar toda sua roupa suja do mundo dos sonhos.
Outro café, para a certeza de que está mesmo acordada. Veste-se. Pendura em si o resto que o mundo precisa enxergar e abre a porta.
Fecha a porta e sente que tudo aquilo que fez até aquele instante são as únicas certezas de conquista que possui: um apartamento pequeno, em uma cidade imensa e uma alma que se enche e esvazia diariamente.
2 comentários:
gosto bastante, moça!
Fico feliz, moço.
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